História das fontes nucleares Hipertipo

23 Agosto 2021

Contexto & motivação

Durante a última década ou mais, venho trabalhando, de vez em quando, em um conjunto de fontes nucleares1 de minha própria autoria. A maior parte dos tipos nesta coleção cresceu de experimentos anteriores com desenho de estilos bitmap – investigando quanta diferenciação estilística é possível no grid de baixa resolução, e como obtê-la – de modo que as formas resultantes são naturalmente bem adaptadas à granularidade da tela digital. Além disso, todas os tipos nesta coleção foram construídos desde o início como sistemas de interpolação contendo pelo menos eixos de peso de largura, permitindo ajustes finos em tamanhos de pixel específicos.

A principal motivação para este trabalho foi desenvolver minhas habilidades como designer de tipos, e aprender mais sobre ferramentas e processos de produção de fontes – as fontes evoluíram juntamente com as minhas ferramentas, e serviram como estudo de caso no mundo real. Não trabalhei com design (tipo)gráfico durante este período, e portanto não tive urgência para terminar as fontes e usá-las em projetos reais; isso me permitiu manter a coleção como um grande canteiro de obras por muito tempo.

Sempre gostei, e ainda gosto, de trabalhar nos diferentes desenhos de tipo em paralelo, alternando entre eles, transferindo lições de um para o outro, comparando soluções, deixando alguns aspectos mais parecidos enquanto outros vão se tornando mais distintos. Gosto também de não trabalhar neles por longos períodos de tempo, apenas para retornar mais tarde com o olhar fresco e o interesse renovado. Isso é bem diferente de uma abordagem orientada para a publicação, em que os projetos são empurrados sequencialmente através de uma linha de produção até o seu lançamento (e esquecimento).

O meu interesse por esse conjunto de fontes foi renovado em 2019-2020, quando consegui converter todas elas em fontes variáveis. A maioria das conversões foi simples, com alguns casos específicos2 necessitando de ferramentas e etapas de preparação especiais. Enquanto as implementações anteriores podiam apenas simular a continuidade através de uma série de instâncias, as fontes variáveis tornaram todo o espaço de variação disponível para o usuário bem aqui no browser, com a API familiar do CSS. Para alguém que havia passado anos lutando contra as limitações das fontes estáticas, isso foi muito estimulante e motivador.


Abaixo estão algumas notas sobre as origens de cada desenho de tipo, tanto quanto eu consigo me lembrar. Os tipos estão listados em ordem cronólogica, dos mais antigos para os mais recentes. Todos encontram-se ainda em desenvolvimento.

Mechanica

desde 2003-04

Mechanica teve início como a versão vetorial da Elementar, uma família de fontes bitmap com conexões simplificadas e aberturas amplas. Essas peculiaridades foram transferidas e refinadas no desenho de Mechanica, primeiramente no papel e depois no editor de fontes.

Construído primeiramente em um grid, o desenho foi aos poucos se distanciando da Elementar e abraçando a maior liberdade do mundo vetorial, ganhando detalhes mais finos como overshoots, uma maior variação nas larguras dos glifos, e um sutil constraste na espessura dos traços. Glifos com traços inclinados puderam assumir suas formas mais naturais, e os números também se tornaram mais distintos entre si. Em 2013, tive a ajuda de Flora de Carvalho, que deu início ao desenho das maiúsculas durante um curto período de aprendizado em Amsterdam.

Sempre tive sentimentos mistos em relação a este desenho. Ele costumava ter um contraste mais pronunciado, com uma tensão na espessura dos traços parecida com a Argo do Gerard Unger (ou, mais provavelmente, inspirada por ela). Eu acabei abandonando esse contraste inclinado em 2019, em troca de uma geometria mais simples que produziu resultados melhores em tamanhos de texto na tela, e que aproximou o desenho à Elementar e a tipos sem serifa construídos (como DIN e Isonorm).

Quando eu comecei a desenhar o que viria a se tornar Mechanica, ainda não havia muitos tipos conhecidos nesta categoria: Dax, Prokyon e talvez Skia são os que me vem à mente. Entretanto, letras com esse estilo de conexões simplificadas estavam muito presentes na paisagem tipográfica através de marcas e letterings, geralmente com alguma conotação futurística ou tecnológica. E, principalmente, essas formas simplificadas estavam presentes em interfaces nas telas de baixa resolução, de TVs a telefones celulares. Desde então, vimos uma explosão de novos tipos de letra nesse estilo, e a consolidação de um novo gênero: as das sem-serifas sem espora, ou spurless sans-serifs. Foi muito interessante ver o aparecimento de novos lançamentos, compará-los ao meu próprio desenho, perguntar a mim mesmo se valia a pena continuar, e escolher seguir adiante. Fica a lição de que, mesmo em um gênero tão minimalista, os resultados serão suficientemente diferentes quando se desenha a partir do zero sem olhar para o trabalho dos outros.

A itálica foi criada em um curto espaço de tempo em 2019, primeiramente inclinando as romanas, depois tornando as formas redondas mais redondas, e tornando retas as terminações horizontais. Este desenho deu à itálica um sabor peculiar que contrasta agradavelmente com a romana ereta e mais quadrada. Caracteres cursivos alternativos também foram adicionados para completar a transformação de romanas em itálicas.

Quantica

desde 2005-06

Quantica começou como um experimento com o método vetorial e escalável de criação de fontes para telas (o “método Verdana”3), depois de muitos anos trabalhando exclusivamente com fontes bitmap. O projeto começou como meu trabalho final no Type&Media, onde eu apresentei apenas o estilo Regular, otimizado para tela com instruções TrueType, juntamente com as fontes bitmap usadas no processo de criação. Após minha apresentação, Gerard Unger – que foi o examinador externo naquele ano – me disse em particular que a Quantica era “uma sem-serifa bastante agradável”4 (acho que ele quis me alegrar, e conseguiu). Eu o agradeci e comentei que havia sido difícil manter as aberturas tão amplas; ele apenas acenou com a cabeça, como se estivesse dizendo “eu sei”.

Continuei trabalhando neste desenho após a minha graduação, adicionando eixos de largura e peso (usando o Superpolator) e expandindo o conjunto de caracteres. Durante muito tempo esta foi a minha fonte mais completa, e alguns amigos pediram para usá-las em projetos reais – o que me motivou a acrescentar mais caracteres e melhorar a qualidade em geral.

Os estilos itálicos foram criados em algum momento entre 2007 e 2014 (não lembro ao certo), baseados em uma versão inclinada da romana, com correções óticas e uma construção mais cursiva. Durante uma temporada de dois meses na Holanda em 2018, converti a família em uma fonte variável, e adicionei um eixo de contraste para poder ajustar a espessura dos traços em tamanhos de título e de texto. Também tornei os estilos romanos e itálicos compatíveis e interpoláveis através de um eixo de inclinação, com formas cursivas alternativas acessíveis através de recursos OpenType.

Synthetica

desde 2005-06

Synthetica foi desenhada originalmente como a contraparte itálica de Quantica, mas acabou desenvolvendo um temperamento diferente que simplesmente não encaixava com a romana, e eu resolvi continuar trabalhando nela como um tipo à parte. A romana da Synthetica foi criada a partir da itálica, inclinando os glifos para trás e desenhando as formas romanas alternativas.

Criar os pesos mais leves para esse desenho foi um desafio, pois não há mais espaço para onde as contraformas podem crescer. Consegui finalmente avançar quando decidi permitir que os arcos e bojos tivessem uma quebra, essencialmente tornando os pesos mais leves em um desenho stencil. Muitos anos depois, quando viria a transformar esse tipo em uma fonte variável, isso iria demandar regras para substituição de glifos para criar (a ilusão de) continuidade entre os pesos mais leves (stencil) e os mais pesados (sólidos).

Os desenhos e o espaço de variação desta família mudaram bastante através dos anos. O desenho itálico original se perdeu no processo; os itálicos atuais foram re-criados a partir da romana. Por volta de 2018 ou 2019, eu tornei as largura dos glifos idênticas ao longo do eixo de pesos. Eu gosto em particular da Itálica Leve Condensada, e a tenho usado em um projeto pessoal há algum tempo.

Synthetica desafia as categorias de classificação tipográfica estabelecidas, misturando características de letras humanistas sem-serifa e letras construídas geometricamente. Sempre tive conhecimento de alguns outros tipos com formas similares – notavelmente a itálica da Quadraat de Fred Smeijers, Calcite de Akira Kobaiashi, Primary de Martin Wenzel – e busquei manter uma distância respeitável em relação a todos eles.

Publica

desde 2007

Publica tem uma história de origem diferente das outras fontes dessa coleção. Enquanto todas as outras foram desenhadas do zero por mim, Publica foi criada a partir de uma família de fontes livres existente – Liberation Sans – que foi modificada para uso na identidade visual de uma universidade pública5. Eu continuei a trabalhar nas fontes após o término do projeto, e ao longo dos anos fui me apropriando totalmente do desenho. Os extremos de peso ultra-pesado e ultra-leve foram diminuídos para se aproximarem do padrão nas outras famílias. O conjunto de caracteres também foi podado, com a remoção de versaletes e um suporte de línguas mais reduzido. É mais fácil fazer mudanças profundas quando as fontes são pequenas.

As itálicas foram reconstruídas posteriormente, inclinando e adaptando a romana. Após a família ter sido convertida em uma fonte variável, foi acrescentado um eixo de contraste na espessura dos traços, abrindo espaço para uma nova série de estilos de título. Com as grotescas sendo um gênero extremamente útil e popular entre designers gráficos, alguns designers me pediram para usar a Publica em projetos de design editorial, o que me motivou a tentar completar novamente as fontes. Para mim é útil tê-la em meu catálogo como uma espécie de não-tipo (a ausência de um desenho), e acho que é adequado que ela tenha sido criada a partir de algo genérico e público.

Jornalistica Romana & Itálica

desde 2008

Jornalistica tem uma história de desenvolvimento bastante difusa. Eu havia desenhado apenas tipos sem-serifa, e queria ter uma fonte serifada no meu repertório. Lembro de ter rascunhado algumas letras no papel durante uma viagem para Amsterdam em 2008, e de ter digitalizado este desenho após retornar ao Rio de Janeiro. Acabei ficando sem tocar nesse projeto por um longo tempo, e quando finalmente retomei o trabalho, mudei o desenho completamente. Acho que isso aconteceu mais de uma vez. No geral, as formas eram mais pontiaguadas, com serifas triangulares e terminações afiadas. Pude contar com a ajuda de Álvaro Franca no desenho das maiúsculas em 2013, durante um período de aprendizado em Amsterdam, porém não me recordo do que conversamos a respeito na época.

Jornalistica Itálica teve dois inícios separados. O primeiro rascunho era de uma itálica mais garamondiana, com traços de entrada e saída em forma de gancho. Assim como havia acontecido com a Synthetica anteriormente, eu gostei do desenho, mas achei que ele não combinava bem com a romana – sabia que precisava recomeçar. A oportunidade surgiu no início de 2015, quando o Álvaro veio passar mais uma semana de aprendizado comigo em Cunha: pedi para ele desenhar uma nova itálica mais fournieresca para a romana de Jornalistica. Foi esse desenho que eu continuei um ou dois anos depois, expandindo-o em um conjunto completo de fontes mestras para séries de peso e largura.

A partir deste ponto, os estilos romano e itálico foram se desenvolvendo lado a lado. Um eixo de contraste foi adicionado aos dois tipos, preparando terreno para a criação de estilos de título e tamanhos óticos. Após mais uma pausa, ambos foram convertidos em fontes variáveis. Eu me empolguei (talvez demais) e acrescentei um eixo de inclinação na itálica, o que me obrigou a desenhar uma versão ereta pra cada fonte no espaço de variação. E além disso tudo, tanto na romana quanto na itálica, resolvi adicionar dois eixos para controlar a altura/profundidade das ascendentes/descendentes, e o tamanho das maiúsculas, o que exigiu a criação de ainda mais fontes mestras – só que, neste caso, o processo pôde ser até certo ponto automatizado.

Mesmo após tantos anos, os tipos ainda não foram postos para trabalhar em um projeto real. Agora que os parâmetros individuais pra controle microtipográficos estão finalmente no lugar, resta fazer o trabalho de definição dos valores ideais pra cada tamanho. De certa forma, é como se a diversão estivesse apenas começando, e eu não vejo a hora de continuar.

Mechanica Mono

desde 2019

Mechanica Mono é um desenvolvimento relativamente recente. Depois de alguns anos usando a EMono 13 (uma fonte bitmap de 13px) como fonte padrão para código, eu resolvi trocar para uma fonte escalável. De todos os meus desenhos, Mechanica era o mais indicado para servir de base para uma fonte vetorial monoespaçada. Mechanica Mono foi desenhada em um final de semana ou dois, através da adaptação das formas proporcionais de Mechanica. Eu tenho usado ela como minha fonte de código padrão desde então – inclusive, estou usando-a neste exato momento para escrever este texto no editor de código. Pra mim, ela tem funcionado muito bem.

Jornalistica Sans

desde 2019

Jornalistica Sans foi criada de forma bastante rápida através da remoção das serifas em Jornalistica Romana e Itálica – algo bastante óbvio e previsível de se fazer. Não tão óbvio e previsível foi a ideia de fazer com que a romana e a cursiva inclinada fossem compatíveis e interpoláveis, abrindo todo um novo território de estilos ‘semi-cursivos’ entre elas.

Embora tenha sido criado rapidamente, esse desenho de tipo despretensioso tornou a família Jornalistica mais versátil como um todo, e acrescentou um sabor tipográfico valioso – sem-serifa humanista – que ainda não estava disponível no meu catálogo.

Pneumatica

desde 2021

Pneumatica desenvolveu-se vagarosamente em rascunhos de guardanapo ao longo de muitos anos – uma sem-serifa ultra-densa e extendida com contraformas finíssimas e terminações de traço arredondadas, divertida e atraente, e também muito fácil e rápida de se desenhar. Lembro que costumava demostrar essa técnica de desenho ‘de fora pra dentro’ em meus cursos de desenho de letras, há alguns anos atrás.

A versão digital foi criada em um final de semana chuvoso, originalmente para uso em um projeto de sinalização interior que (ainda) não se materializou. Eu gostei do resultado, e achei que o novo tipo preenchia uma lacuna na coleção de fontes – uma grotesca não-clássica com algum humor e crocância, e que levava algumas ideias da Synthetica para uma outra direção – e acabei decidindo incluí-lo de última hora neste grupo. Algumas semanas depois, acrescentei um eixo de inclinação e glifos alternativos cursivos para produzir os estilos itálicos.

Calligraphica

desde 2008

Calligraphica possui uma história única dentro desta coleção. O seu desenho é, em essência, de uma natureza diferente: eles existem primariamente como esqueletos (contornos abertos), com o desenho dos glifos sendo calculado (por código) e/ou desenhado (pela mão) em relação a eles. As fontes esqueleto que servem de base para Calligraphica constumavam pertencer a um grupo separado de fontes que eu chamava de StrokeFonts. A origem dessas fontes esqueleto remonta aos meus exercícios de caligrafia no Type&Media, e à experiência como usuário de uma versão de teste do Kalliculator, uma ferramenta para simulação de caligrafia desenvolvida pelo meu colega Frederik Berlaen.

Esses alfabetos-esqueleto inacabados ficaram intocados por alguns anos, até que eu os redescobri e melhorei para mostrar durante um workshop de desenho de tipos, como ilustração de diferentes modelos de construção. Isso deve ter sido por volta de 2007-08. Havia diversos tipos de esqueleto: interrompido, conectado e interligado; ereto e inclinado; com ou sem serifas; construído e orgânico; etc. Eu desenhei apenas as minúsculas (muitas vezes nem mesmo completas), e imprimi palavras de amostra diretamente dos glifos da fonte UFO, aplicando uma espessura de traço nos contornos abertos.

Alguns anos depois, o Kalliculator já não estava mais disponível, e eu havia me tornado mais habilidoso em programação. Estava experimentando com diferentes maneiras de gerar desenhos de letra com código, e usei os antigos esqueletos caligráficos para explorar uma ferramenta rudimentar de simulação de pena. Isso deve ter sido por volta de 2011-12. A atração principal na época era poder calcular um gradiente de cores ao longo do contorno, enquanto a largura e o ângulo da pena eram todos fixos. Em ferramentas de simulação de pena mais capazes como Kalliculator ou MetaFont, entretanto, a largura e ângulo da pena podiam ser diferentes em pontos específicos ao longo do contorno, e o traço era calculado através da interpolação de passos entre estes pontos – isso estava além das minhas habilidades como programador na época.

Mais alguns anos se passaram, e as ferramentas foram se tornando melhores. Em 2016 o Frederik lançou o Outliner, uma extensão do RoboFont para calcular um traço de espessura uniforme ao redor de desenhos abertos ou fechados. O resultado produzido por essa ferramenta era bastante superior ao do FontLab Studio na época: estruturas de pontos bézier limpas com os devidos overlaps, como estamos acostumados a criar manualmente. Essa ferramenta tornou os alfabetos-esqueleto muito mais úteis, já que agora era possível gerar fontes de verdade diretamente deles. O fato do Outliner ser open-source também era bastante interessante, pois me permitia plugá-lo nas minhas próprias ferramentas e experimentos.

Enquanto estive trabalhando na documentação do RoboFont 3, pude me familiarizar mais com as APIs internas do RoboFont e com boas práticas na construção de ferramentas. Em particular, aprendi a usar representações para melhorar a performance de ferramentas que precisam exibir e atualizar informação na tela; e aprendi a usar identificadores únicos para associar qualquer tipo de informação a pontos individuais. Com essas últimas peças, consegui finalmente construir uma ferramenta de simulação de pena adequada no RoboFont (chamada StrokeSetter) que podia controlar a largura, a altura e o ângulo da pena individualmente para cada ponto ao longo do contorno do esqueleto. Ou, em outras palavras, agora eu podia finalmente ir além da mera translação para simular também rotação e expansão da pena.

Uma ferramenta de simulação de pena para designers de tipos completa deve ser capaz de simular o traço da pena (visualizar na tela), e de gerar o traço da pena na forma de curvas bezier adequadas para fontes (com contornos separados, curvas suaves, posicionamento de pontos adequado, se possível junções sobrepostas, etc). O Outliner e o Kalliculator podem fazer os dois6. Minha simples ferramenta StrokeSetter consegue simular a pena razoavelmente bem, mas pode gerar apenas contornos ‘sujos’ com muitos pontos redundantes, que demandam edição manual antes de poderem ser usados em uma fonte. Ainda assim, apesar dessa limitação, a ferramenta tem sido bastante útil no meu trabalho de desenho.

A fonte variável Calligraphica atual foi criada em torno de 2019, para uso com ilustrações vetoriais de estilo similar – linhas de contorno abertas com espessura uniforme e extremidades arredondadas. Eu usei o esqueleto Cursivo Interrompido Sem-Serifa Inclinado para criar fontes mestras Light e Black usando as funções do Outliner, e produzi uma primeira fonte variável com um eixo de peso simples. Tenho usado esta fonte desde então para produzir alguns panfletos fotocopiados, e venho melhorando e ampliando o desenho pouco a pouco. Um eixo de largura foi adicionado, incialmente usando o mesmo esqueleto e um fator de compressão horizontal. Isso levou a muitas concessões, e na rodada seguinte eu passei a trabalhar com um esqueleto para cada fonte mestra, o que me permitiu adaptar o esqueletos para cada estilo7. Além da versão com o traço de espessura uniforme, comecei também a produzir uma versão com contraste acentuado, usando a ferramenta StrokeSetter e trabalho manual adicional. Essa versão ainda não está integrada à fonte variável porque as estruturas de pontos ainda não são compatíveis.

O desenvolvimento mais recente nesta família é adição da versão Romana, baseada no esqueleto Romana Interrompida Sem-Serifa Ereta do antigo conjunto de StrokeFonts. As duas fontes variáveis estão sendo usadas atualmente, em combinação, como tipos de texto em uma pequena série de brochuras. Espero poder acrescentar o eixo de contraste em breve.


Nota sobre nomes de fontes

Eu gostaria de conseguir encontrar nomes melhores para todas as fontes. Já tentei muitas ideias ao longo dos anos, buscando inspiração nos mais variados lugares – de minerais a plantas, de constelações a marcos geográficos, de nomes próprios a códigos alfanuméricos. Eu acabo sempre voltando para os nomes atuais, que nunca foram considerados como os nomes finais, apenas nomes de trabalho. Eles funcionam porque são de certa forma descritivos de cada desenho tipo, e juntos compõem um grupo ou sistema de nomes com sonoridade parecida. Talvez os nomes não sejam suficientemente únicos – neste caso, posso acrescentar um prefixo com o nome da fundição para evitar ambigüidades.

Notas

  1. Fontes nucleares significa exatamente isso: fontes essenciais que formam o cerne de uma coleção em crescimento. A expressão é também uma alusão ao termo “core fonts”, como nas core web fonts dos primórdios da internet. 

  2. Especificamente, os eixos de extendentes e maiúsculas na Jornalistica Romana e Itálica, e a parte inferior do eixo de peso da Synthetica. 

  3. Até onde eu sei, a Verdana foi criada inicialmente como uma série de fontes bitmap em diferentes PPEMs; os bitmaps foram sobrepostos no mesmo tamanho; e só então os contornos foram desenhados ao redor. 

  4. Em inglês: “A very nice sans-serif.” 

  5. Projeto de atualização da identidade visual da UnB, desenhado e coordenado por Rafael Dietzsch

  6. Isso e muito mais é explicado em detalhes na documentação do Kalliculator (em inglês). 

  7. Isso também é mencionado na documentação do Kalliculator (minha tradução abaixo):

    Finalmente, a diferença é criada quando o peso é alterado de regular para negro. A maioria destes problems com peso podem ser resolvidos pela adaptação do esqueleto ou do ângulo da pena, mas é recomendado ajustar o esqueleto. Uma pena de ponta chata negra tem um esqueleto diferente do peso regular, porque possui um contraste maior. Quando for criar uma negra baseada em um esqueleto de uma regular, o contraste permanece nos lugares corretos, mas o resultado não possui o mesmo grau de nitidez. Porém, quando os pesos chegam a extremos há muito preto em um certo ponto. Para resolver este problema com um resultado qualititivo, o esqueleto precisa ser alterado.